quarta-feira, agosto 25, 2004

O que é intermitente, para fins...

Uma sensação maléfica toma conta de mim, ultimamente. Venho andando, sem rumos ou prosódias e tento ficar alegre com algumas situações forjadas. Embora meu temperamento seja complexo e difícil de lidar, venho experimentando sensações piores e cada vez piores. É uma doença que atinge a vista e nos faz enxergar sem cores. Venho percebendo, ao longo do tempo, que as coisas vêm gradativamente perdendo o colorido. Os portões já não mais exibem aquela tinta fresca, de recém pintado; os gatinhos ao meio da rua me parecem cinza...tudo preto e branco, artisticamente desenhado, parecendo omitir, propositalmente, a vida nos contornos. A senhora de bicicleta passa apressada e eu apenas observo sentado num banco de praça. Não estou só, como é usual em mim, é pior que isso: a sensação se confunde com o toque. A vida real leva consigo a mistificação do tempo. É nisso que penso enquanto vejo a bicicleta se movimentar. O nosso coração parece chorar, mas não vemos lágrima, sequer um pranto.
De vez em quando, penso em mim como uma caixa, uma velha caixa de madeira no porão da casa. Cheia de mistérios impenetráveis mas ao mesmo tempo simples e velha, cheia de recoradações, um semblante, uma insígnea para cada fase da vida: ali foram roupas, alegrias. O que há em mim de tão profundo que tento esconder dos outros? O que em mim parece ser tão genial e recuso mostrar? Sinto que fui abençoado com algo a mais, mas é como se minha rebeldia não gostasse de exibições externas, e meu mundo fosse apenas meu, sem ninguém. Uma redoma sem críticas...é lá que vivo e onde me mantenho o rei de alguma dinastia...

Isto é ser intermitente, o não morar em si...

sexta-feira, agosto 20, 2004

Festinha de aniversário, em fins quaisquer...

A casa cheia, eu cansado. Tonto, por sinal. Prá falar a verdade, não curto muito essa de festa de família, porque me sinto um indivíduo deslocado, não consigo traçar um paralelo de interesse com os sujeitos parentes. Mas, por consideração a gente vai né? Acaba não arrumando desculpa tão esfarrapada: matar duas vezes, em dois anos a festa é meio incompreensível, pra qualquer papo que se tente esboçar. "O ano tem 365 dias e justo no meu aniversário você decidiu arranjar problema?". Pois é, vamos que depois de duas horas eu já tava de saco cheio de forjar uma social.
O que será o ser alguém
sem retrucar sua forma
que no meu espelho se reflete?
Ainda tomo uma pra ficar mais bêbado
me entrego ao vício pra esquecer a cor dos olhos,
embriagar-se mais uma vez...
pra ver se funciona,
se o cigarro apagado fere na alma
como uma despedida dos seus lábios
que não conheci
e jamais conhecerei...

quarta-feira, agosto 18, 2004

Para fins anti-depressivos

Um presente inesperado
Toca o telefone. Antes meu celular, que tocou umas três vezes sem eu ter reconhecido o número. Chamada daquelas que vem de longe, número que a bina prefere deixar como dígito e não como nome. Alguém atente e, por surpresa, a ligação era pra mim. "Que pessoa me liga a esta hora?" pensava, esperando atender qualquer voz reconhecível, ao por no ouvido, nunca ouvira algo semelhante. Era um calouro meu da faculdade, o Nassif. Tinha esquecido. Dei meu número de telefone porque ele precisava do livro de Administração e tal. Um papo que achei que levaria apenas alguns minutos foi-se perdurando por uma hora e mais minutos. E, subitamente, minha tristeza foi-se esvaindo. Ouvia aquele menino falar de formas tão interessante, empolgante...fui quase induzido a crer que se tratava de uma boa pessoa. A conversa me fez crer muito mais. É, parece ser um bom candidato a amigo. Afinal, precisava arranjar mais de duas pessoas para gostar de mim. Esse meu jeito meio difícil de lidar, meio depressivo. Sei que no fim das contas me senti feliz, como diria, acompanhado. É assim que funciona. A morte nem sempre é a saída, mas o início de uma outra morte. A forjada sensação inóspita de estar e não estar ausente. Ser por si só...Ele jamais lerá isto aqui que eu escrevo, jamais tomará conhecimento destes breves escritos que redigi a sua pessoa, mas dentro de mim estarei sempre grato por algumas boas horas de conversa...obrigado.

Um pensamento depressivo

segunda-feira, agosto 16, 2004

Não me encontro

Em todos os dias que passam, tento encontrar em mim uma ausência manipulada. Já não acredito que posso me esvair de sentimentos, tampouco me enganar. O desinteresse cresce, cresce ainda mais e me assusta. Já não sou o mesmo de antes; algum Marcelo em mim morreu e foi sepultado sem meu conhecimento...perdido entre as palavras, tento me desencontrar, pra quem sabe eu possa me perder novamente, ser feliz, apenas. Seria uma falta de compreensão da minha parte? Minha natureza de artista me manipula e me convence de que tenho que ser eu mesmo nas horas mais impróprias. Que sentimento é este que nasce em mim? Já não consigo narrar com todas as fábulas, já me faltam algumas palavras...e fico mudo, calado, como quem não sabe falar. Passo desapercebido pelos cantos, mas só queria aparecer um pouco mais que os outros; é meu ego que me martela e me obriga a vir todos os dias; uma luta incansável contra o destino que está me carregando para as valas tristes do infinito, se é que isto existe como um todo...

Algo especial, é como os outros dizem. Eu tenho algo especial...de que isto me importa, se não consigo acalmar minhas ânsias, se mesmo aqui, tão solto neste ambiente, sinto-me enjaulado na memória, presa do inconsciente...facilmente, vou desistir de pensar com algum tempo. É apenas um dia ruim, como diriam os outros...afinal o que é sonho? Sou tão sonhador, que mesclo e a realidade em potencial. E me procuro nas capas de jornais...quando será que vou estar lá? Quando será que vou conseguir a atenção de que preciso? Pobres dos artistas que não possuem refúgios e tem que se ver como eu: prisioneiro de um futuro sem rumo...