Uma sensação maléfica toma conta de mim, ultimamente. Venho andando, sem rumos ou prosódias e tento ficar alegre com algumas situações forjadas. Embora meu temperamento seja complexo e difícil de lidar, venho experimentando sensações piores e cada vez piores. É uma doença que atinge a vista e nos faz enxergar sem cores. Venho percebendo, ao longo do tempo, que as coisas vêm gradativamente perdendo o colorido. Os portões já não mais exibem aquela tinta fresca, de recém pintado; os gatinhos ao meio da rua me parecem cinza...tudo preto e branco, artisticamente desenhado, parecendo omitir, propositalmente, a vida nos contornos. A senhora de bicicleta passa apressada e eu apenas observo sentado num banco de praça. Não estou só, como é usual em mim, é pior que isso: a sensação se confunde com o toque. A vida real leva consigo a mistificação do tempo. É nisso que penso enquanto vejo a bicicleta se movimentar. O nosso coração parece chorar, mas não vemos lágrima, sequer um pranto.
De vez em quando, penso em mim como uma caixa, uma velha caixa de madeira no porão da casa. Cheia de mistérios impenetráveis mas ao mesmo tempo simples e velha, cheia de recoradações, um semblante, uma insígnea para cada fase da vida: ali foram roupas, alegrias. O que há em mim de tão profundo que tento esconder dos outros? O que em mim parece ser tão genial e recuso mostrar? Sinto que fui abençoado com algo a mais, mas é como se minha rebeldia não gostasse de exibições externas, e meu mundo fosse apenas meu, sem ninguém. Uma redoma sem críticas...é lá que vivo e onde me mantenho o rei de alguma dinastia...
Isto é ser intermitente, o não morar em si...